sábado, 13 de fevereiro de 2016

Cultura, arte e financiamento



# Sobre as formas existentes hoje
O panorama do incentivo à produção cultural e artística de Santa Catarina é notadamente falho, tanto por parte do poder público quanto por parte do setor privado. Não vou entrar nas demandas que a classe vem reivindicando há mais de vinte anos de luta no campo das políticas culturais, porque isso seria desfiar uma série de reclamações já bem conhecidas e que atacam principalmente (e com razão) o Governo Estadual e os Governos Municipais. Para se ter uma ideia a produção catarinense inteira conta anualmente com os Editais de Incentivo do Ministério da Cultura/Governo Federal (para todas as áreas) que dividem um montante bem baixo entre toda a região sul do Brasil. Depois disso tem praticamente nenhum apoio concreto da esfera estadual e algumas cidades contam com editais e programas municipais (como Rio do Sul, Itajaí, Blumenau, Joinville, etc.) e outras operam com orçamento praticamente nulo (como Florianópolis, por exemplo). Verbas vindas de leis como a Lei Rouanet não são uma realidade plausível pelo menos no campo do teatro, que é o que eu circulo mais: moramos em um Estado em que a iniciativa privada simplesmente não vê sentido em incentivar a cultura, porque vê esse dinheiro de forma distorcida como uma verba de marketing da empresa e não como renúncia fiscal que deve ser usada como retorno à sociedade. O empresário escolhe o projeto não pelo valor artístico, pela qualidade e continuidade do trabalho da companhia ou do artista, pelo modo como aquilo vai impactar positivamente uma comunidade ou sua cidade: ele escolhe se tem um nome famoso ou apelo comercial que vai gerar visibilidade na mídia.

#clichê 1 – propagar um discurso que os artistas e produtores culturais só produzem com dinheiro público vindo de editais.
Se isso fosse verdade, não haveria produção artística e cultural em Santa Catarina há muito tempo. As verbas de editais como o Myriam Muniz, Klauss Vianna, Elisabete Anderle (todos editais de financiamento direto) são irrisórias em relação ao modo como o setor se movimenta realmente. Isso porque posso ter um financiamento para montar um espetáculo teatral, mas todo o meu percurso de formação e pesquisa para que esse espetáculo tenha qualidade não é pago pelo edital. Todo o trabalho de manutenção e circulação deste trabalho, a manutenção de ensaios, equipamentos, profissionais, não é paga pelo edital. É extremamente perverso falar que os artistas de pequeno e médio porte (que não realizam grandes eventos e produções ligadas à cultura de massa e mídia) são sustentados por verba pública. Vou dar um exemplo meu: recebi R$20.000,00 para montar um espetáculo (Récita) em 2014, através do Edital Elisabete Anderle. Esse dinheiro foi dividido em cerca de sete ou oito profissionais pagos para desempenhar suas funções, materiais de cenário, equipamentos, figurinos, material gráfico, etc. Para dar conta eu me divido em diversas funções: sou atriz, faço produção, assessoria de imprensa, cuido das finanças, etc. Trabalhamos um ano e meio, ensaiando quase todos os dias para que o trabalho estreasse: agora faça as contas entre o valor que recebi e o tempo/montante de trabalho executado. Você acha que isso é ser sustentado através de editais? Assim como eu, no campo do teatro todos fazem isso. Dividem-se em mil funções, que nunca são devidamente pagas. Geralmente o que a verba dos editais faz é viabilizar ações, mostras, espetáculos, turnês que nunca aconteceriam sem financiamento de uma fonte maior. Mas o trabalho de pesquisa, manutenção e continuidade de percursos de vinte, quinze anos de trabalho artístico é completamente bancado pelos grupos e artistas que se viram dando aulas, trabalhando em diversos projetos ao mesmo tempo, fazendo bicos e quebrando a cabeça para ver como sobreviver apenas de teatro em Santa Catarina.  Ou seja, tod@s que fazem realmente um trabalho sério e constroem trajetórias sólidas sobrevivem sem dinheiro de Editais, porque a cultura é feita de pessoas, pessoas estas que precisam sobreviver mês a mês. Esta afirmação abre precedente para buscar um entendimento maior da responsabilidade do Estado e da comunidade em torno para a sustentação da cultura e da arte em um lugar. 

#clichê 2 – a verba para a cultura/arte é supérflua, em um momento de crise o governo tem que investir em saúde e educação.
Esta é uma frase que tenho ouvido bastante, inclusive em lugares oficiais, como a Câmara dos Vereadores de Florianópolis. O que não passa pela cabeça da maioria das pessoas que propaga este clichê é que a verba da cultura, tanto no âmbito estadual quanto em alguns municípios de Santa Catarina já não é paga/utilizada integralmente há décadas. Existe sim dinheiro para executar muitos projetos e iniciativas, mas ele vai se perdendo em um escoadouro que mistura má administração, corrupção e uma mentalidade tacanha. A verba da cultura já não serve à cultura há muito tempo, por mais que a classe se empenhe em engendrar denúncias manifestos, ações. Frases como essa só evidenciam uma Santa Catarina que possui uma mentalidade de que cultura e arte são “produtos” supérfluos. Vivemos em um lugar em que visitar um museu no sábado não é um programa de família, que freqüentar atividades na casa de cultura de sua cidade é uma realidade distante do cotidiano das pessoas. Ir a um show de música, ver uma peça de teatro são gastos insensatos em tempos de crise: não pago $20 reais para ver um espetáculo, mas pago o mesmo valor por um sanduíche qualquer na esquina. Estamos imersos em uma cultura do entretenimento, que tenta desmontar a lógica da necessidade de financiamento público para a cultura e a arte, usando um argumento perverso: de que cultura e arte sendo supérfluas podem ir para o final de uma fila de “prioridades”. Agora faça um exercício: imagine seus dias sem música, sem fotografia, sem filmes, sem atores e atrizes, sem desenhos e pintura, sem livros... a vida seria a mesma? Tudo isso lhe parece supérfluo? Então lembre-se que tudo isso é feito por pessoas, que trabalham para que isso exista.

#cenário 1 – arte e cultura sustentadas apenas por uma mentalidade de mercado.
Se o seu trabalho é tão bom, ele deveria se sustentar economicamente. Correto? Não. Quando falamos de cultura e arte, entramos em um campo que deve prescindir de um valor mercadológico para sua sobrevivência. Se isso valesse mesmo, toda a produção artística e cultural da atualidade se alinharia com o “gosto” do consumidor médio: no teatro só faríamos comédias porque as pessoas só pagam para dar risada. Na música só se faria cover, porque só pagam para ouvir músicas já consagradas pela mídia. Nas artes visuais só haveria reprodução de telas famosas para ornar paredes de hotel. A produção artística é uma produção simbólica, que reflete um pensamento complexo sobre o tempo em que vivemos, que expressa esteticamente anseios, visões, ideais muitas vezes antagônicos com as tendências de “mercado”. Tem que ser transgressora, tem que ser provocativa, tem que dialogar com as pessoas de seu lugar e seu tempo. Ainda que de forma questionável, o financiamento através de editais públicos concede uma liberdade artística e de expressão aos artistas e produtores culturais muito importante: posso escolher temas, concepções de mundo, colocar dedo em feridas abertas, expor problemas, criar polêmicas. Bem ou mal, o financiamento do Estado aos projetos culturais faz com que uma diversidade salutar de vozes e pensamentos seja mantida, enquanto as regras do mercado homogeneízam tudo em prol de sua vendabilidade. Reduzir a questão da sobrevivência das iniciativas artísticas e culturais de um lugar ao argumento do mercado é estúpido. O mercado vai sustentar só o que dá dinheiro, e arte não é um bem consumível. É um bem vivível, conceito um pouco fora de moda no mundo em que vivemos hoje que se baseia em ter/consumir e não em vivenciar/ser. 

#os editais e suas complexidades
Os editais marcaram uma importante conquista em Santa Catarina: o fim da política de balcão, aquela velha prática de ficar anos tomando cafezinho em algum órgão do Estado e negociando valores e projetos pela camaradagem entre “amig@s”. Os editais significam uma concorrência pública, que dá chance a muitas pessoas de terem projetos financiados que possuem mérito e excelência. Cria diversidade e aumenta a oferta de atividades para o público em geral. Claro que há os dois lados da moeda: preencher uma papelada de projeto, fazer a burocracia necessária, escrever textos, orçamentos e cronogramas bem fundamentados é um trabalho complexo. Imagine a associação dos artesãos de uma comunidade indígena preenchendo uma justificativa em 330 caracteres de porque seu trabalho é importante? É claro que eu, tendo um doutorado, farei um texto bem melhor, e tenho mais chance de levar a verba. Então a lógica dos editais ainda é excludente: é prioritariamente branca, letrada, de uma classe social que tem acesso a internet e computadores. Ou seja, mesmo que garanta mais diversidade, ainda não dá conta da realidade do Brasil. O edital engessa também as formas de arte, as categorias. E transforma noss@s colegas de profissão em concorrentes: se eu ganho significa que alguém não ganhou. Mas isso só ocorre porque o investimento é tão miserável que tod@s ficam se engalfinhando por uma verba irrisória, quando na verdade se o dinheiro fosse investido integralmente teria espaço, verba e sustentabilidade para tod@s.

#pessoalmente falando
O último edital que eu ganhei como artista, em um projeto pessoal, foi em 2014. Trabalhei e trabalho continuamente em projetos que foram contemplados em outros prêmios e formas de incentivo, sempre como colaboradora de outros núcleos e companhias. Mas a manutenção dos meus espetáculos que estão em repertório nas viagens dos últimos dois anos, a execução de meus projetos de pesquisa artística como a residência Solidão Compartilhada (com a atriz Monica Siedler), a montagem do novo espetáculo, a manutenção de projetos importantes como o Vértice Brasil (com as Marisa Naspolini, Glaucia Grigolo e Monica Siedler), tudo isso é feito diariamente e sem verba pública ou de edital. Criar uma rede de apoio entre companhias, coletivos e artistas é uma forma de sobreviver, pois estamos continuamente circulando e nos ajudando mutuamente. Quando um núcleo ganha um projeto, envolve toda uma cadeia produtiva ao redor. E se você como artista paralisa a sua produção, esperando para retomar quando o próximo edital sair, seu trabalho morre. Recentemente li uma frase de um diretor russo chamado Meierhold, em que ele diz que para se fazer o teatro que acredita, você tem que pagar do seu bolso. Isso valia em 1920 e vale ainda hoje. É perverso, poderia ser melhor, estamos lutando para que seja; mas para essa virada ocorrer teríamos que viver uma mudança profunda de padrões de pensamento e ação que estão no nível humano. Rever escolhas, conceito de felicidade, de bem estar, de saúde. O governo, as cidades, são feitas de pessoas. As pessoas teriam que sentir necessidade de assistir teatro, de pensar o mundo, de sair da frente da televisão e ver o que está acontecendo ao seu redor: daí sim talvez as coisas mudassem no campo da produção cultural no contexto em que estou inserida.


#instituições, institutos, fundações ausentes
Outro fator que é bem característico do cenário cultural e artístico de Santa Catarina é a completa ausência de institutos de artes, fundações, bibliotecas ou espaços culturais. Não estou falando dos prédios físicos (esses existem) e nem de lugares que ficam abertos de segunda a sexta com um funcionário só para abrir e fechar a porta do lugar. O fato é que não há um desenvolvimento de espaços realmente qualificados de cultura, que tenham curadoria, programação, pessoas trabalhando 24h para lançar programas, residências, diálogos entre comunidade e artistas. A arte não é vista como uma profissão ainda em nosso Estado, mais um sinal de uma comunidade super retrógrada. Em 99% dos casos somos nós artistas que movemos isso, geralmente financiados pelos Editais. Tem o SESC Santa Catarina, que está ali como uma tábua de salvação no meio do nada, mas tem infinitamente menos recursos que outros Estados do Brasil e com certeza não consegue atender a tod@s. Tais locais (que seriam, por exemplo, um Centro Cultural São Paulo, os CCBBs, etc.), dão chancela aos artistas, mediam o contato do público com a arte e ajudam os dois lados. Não é só abrir as portas de um lugar, colocar um cartaz na porta e pronto: existe um trabalho por trás, realmente sério, que não é feito. Para se ter uma ideia, falando de Florianópolis, existem poucos espaços que possuem uma estrutura que se dedica a pensar a estrutura intelectual e logística desses locais. A Fundação Badesc ou o Museu Victor Meirelles são exemplos positivos em Florianópolis, porém operam com tão pouca verba que não conseguem mover muito. Mas os espaços públicos da prefeitura ou do Estado, por exemplo, desanimam até os mais teimosos: não “podem” abrir finais de semana porque o vigia não está, desmarcam seu evento em cima da hora por motivos banais, tratam os artistas e o público como aquelas figuras que vão perturbar a ordem do local e gerar mais trabalho, em uma completa inversão de valores do que seriam espaços dedicados à arte e cultura. Só para se ter ideia, ano passado em uma apresentação do meu espetáculo “A Menina Boba” em um espaço da prefeitura, três horas antes de começar as funcionárias pediram para eu cancelar porque o dedetizador apareceu de surpresa, e iam dedetizar o prédio. Eu bati o pé e disse que não cancelaria, que era um absurdo: resolveram a situação do dedetizador mas @s outr@s funcionári@s do mesmo prédio ficaram bravos porque não poderiam ir para casa mais cedo por causa de uma apresentação teatral qualquer. Situações como estas praticamente expulsam qualquer artista sã@ de permanecer em Florianópolis produzindo. Tod@s as pessoas ao meu redor que trabalham com arte já passaram por situações semelhantes ou piores, e é importante mostrar ao público que só existe a programação generosa que Florianópolis (e outras cidades do Estado) tem oferecido nos últimos anos porque somos bem insistentes, pois o cenário é completamente desfavorável.
 




segunda-feira, 30 de novembro de 2015

XVII Festival Bertolt Brecht - Cochabamba, Bolívia



Car@s amig@s!
Estamos promovendo duas apresentações do espetáculo Récita para arrecadar fundos para uma viagem à Bolívia na próxima semana, onde participaremos no XVII  Festival Bertolt Brecht, em Cochabamba. Em virtude de não termos conseguido apoio institucional para as passagens aéreas, estamos adotando a política de ingresso livre com uma contribuição mínima de $10 para a nossa caixinha de viagem. Venham! Contribuam! Ajudem a divulgar para amig@s!
Até breve!

Serviço:

Blumenau

03/12
FURB/ Campus 1 - Bloco S
20:30h
Entrada livre - com contribuição mínima de $10
Capacidade de público: 80 lugares

Itajaí

05/12
Casa de Cultura Dide Brandão
21h
Entrada livre - com contribuição mínima de $10
Produção: Subjétil
Reserva de ingressos: goncalves.karoline@gmail.com

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Oficina em Florianópolis :::: O corpo permeável


Dias 25 e 26 de julho de 2015
Das 14h as 18h
R$ 200,00 (para pagamento até dia 20 de julho)/ R$ 250,00 (após o dia 21/07)
Local: Casa Vermelha/ Florianópolis (R. Conselheiro Mafra 590, Centro).
http://www.casavermelha.art.br/

Inscrições: barbara.biscaro@gmail.com

Aberta a cantorxs que desejam trabalhar aspectos cênicos como expressão corporal e atuação ligada à palavra cantada e a atores/atrizes que desejam trabalhar a vocalidade cantada e expressão vocal como poéticas da cena. O intercâmbio entre cantorxs e atores/atrizes na mesma oficina tem como propósito uma vivência interdisciplinar, proporcionando um ambiente com estímulos e olhares diversificados para a expressão da vocalidade na cena. Esta é uma oficina prática que visa desenvolver técnicas corporais e vocais que possam complementar a formação dx performer na cena. O fio condutor são práticas corporais-vocais que ajudem cantorxs e atores/atrizes a perceberem seus padrões de movimento e de voz, com base em técnicas de canto e vocalidade para o ator, jogos vocais-corporais e técnicas corporais que visam a auto-percepção e o desenvolvimento da expressividade em cena. Os exercícios partem das possibilidades individuais de cada performer e seus objetivos, buscando não padronizar os corpos e vozes, mas sim, proporcionar um treinamento em que cada um possa descobrir suas próprias potencialidades e imporem-se desafios técnicos/criativos com intuito de aprimorar sua formação.




terça-feira, 30 de junho de 2015

A Menina Boba em Florianópolis

Depois de uma passagem pelo Festival Giving Voice 13, em Falmouth/UK, o solo volta a Florianópolis dentro do projeto Solidão Compartilhada, uma residência artística com ocupação de espaço com Monica Siedler promovida pelo Estúdio 1700 Horas/ Instituto Meyer Filho. A entrada é franca, porém o espaço é pequeno, portanto corre lá!

Dia 03 de julho
18 horas
Memorial Meyer Filho (Praça XV de Novembro esquina com R. Tiradentes)
Duração 40 minutos


quarta-feira, 22 de abril de 2015

Doutorar-se

Meus pais, com muita dificuldade, estudaram. Meus avós estudaram menos ainda – sou neta de um ferroviário, um sapateiro, uma balconista de loja de armarinhos e uma costureira. Minha tese foi financiada com dinheiro público, e por isso, sendo brilhante ou insignificante, é um patrimônio intelectual do país construído a custa de uma política pública. Sou a primeira pessoa a me tornar doutora em uma grande e numerosa família, formada em grande parte de imigrantes italianos pobres e desavisados, chegados por aqui no início do século XX e misturados pouco a pouco com toda a diversidade étnica e cultural que o Brasil podia oferecer.

Um título de doutor não melhora nem engrandece ninguém – apenas aumenta a sua responsabilidade em um país em que, infelizmente, ainda poucas pessoas podem efetivamente estudar e se sentir autorizados a construir um discurso sobre o mundo. Eu tive a oportunidade de ir até um grau de estudos que muitos antes de mim não puderam, e o fazer não pode ser apenas uma forma de me tornar mais erudita e culta: tem que potencializar um modo de ver o mundo que deseje estimular a reflexão, o debate e o aprendizado como uma ação humana e cotidiana para além da instituição ‘escola’ ou ‘universidade’.

Às vezes esquecemos, mas teses e dissertações são produtos da ação humana. Não são simplesmente um amontoado de conceitos impressos em um papel que não se relacionam com a vida ao redor. Na verdade nasceram e são potencializados pela vida ao redor – e xs pesquisadorxs que os produziram caminham por aí, levando adiante a possibilidade de que a educação vá fazer algo pela melhoria de nossa qualidade de vida.

A intensa especialização promovida pelos estudos da pós-graduação, nos quais x pesquisadorx se concentra em áreas específicas e estuda às vezes assuntos super individualizados não é algo em si negativo. Mas em alguns casos, pode conduzir a uma cegueira generalizada – ou, como explica o pesquisador francês Edgar Morin, se tornar um tipo de estudo que produz uma proporcional quantidade de ignorância (o que sei é muito específico e o que não sei se torna um vasto e desconhecido universo para fora da minha lente de aumento).

O doutoramento ou o título de Doutor (com D maiúsculo) são condições construídas com autoritarismo em nossa cultura: são fatos associados à ideia de que, uma vez nesse patamar, a pessoa sabe mais do que xs outrxs e por isso não pode ser questionada.  Do Brasil colônia até a República os filhos homens de nobres e grandes fazendeiros (sempre brancos e heteronormativos) iam para a Europa titular-se Doutores ou Bacharéis e, ao retornarem, herdavam os meios de produção econômica e intelectual de um vasto país de “ignorantes”. Ainda chamamos xs médicxs e advogadxs de doutores como consequência desse pensamento autoritário. Em nossa cultura a figura do Doutor ainda é aquela pseudo-autoridade vista de forma maniqueísta: de um lado xs que ainda perpetuam a visão da figura de ser-humano tornado “superior” pela titulação e do outro lado a visão de uma figura inútil “imbecilizada” e afastada do mundo “real” pelo processo acadêmico.

Não perpetuar essa visão maniqueísta é a primeira ação a ser empreendida por quem acredita na educação como via de construção de um mundo mais justo. As políticas públicas que estão sendo disseminadas nos programas de bolsas de pós-graduação dão uma nova cara aos doutorxs e mestres no país. Ainda são majoritariamente brancxs e de uma certa condição econômica, mas, ao mesmo tempo já somos mulheres e homens, espalhadxs por todas as regiões do país. Negros, indígenas, mulheres, homossexuais, pobres, pouco a pouco uma variedade maior de tipos de seres humanos está ganhando a possibilidade de aprender a pensar e construir um discurso sobre si e sobre o mundo ao redor avalizados pela academia. Estamos ganhando novas versões da e para a história, geografia, filosofia, arte, etc. confrontadas por pessoas que cem anos atrás não poderiam se manifestar enquanto seres pensantes e transformadores da sociedade.  Já produzimos nosso próprio conhecimento como latino-americanos e ex-colônias que somos, e isso por si já nos diferencia.

Nesse sentido, a tese é um exercício do pensar que deve necessariamente se estender à vida. É muito fácil falar de melhoria na educação do país e jogar a responsabilidade para a educação de base. Faz-se necessário olhar para o próprio umbigo e perceber que ser umx pós-graduadx em um país no qual uma criança na escola pública se alfabetiza aos doze ou treze anos de idade não é apenas uma possibilidade a mais de aumentar o salário ou fazer aquele concurso bacana e resolver a sua vida financeira. É uma condição que possibilita agir qualificadamente em diversos campos do conhecimento e do trabalho para tentar criar um impacto positivo ao redor. A tese não é um fim do caminho, mas marca apenas o começo – como me foi dito por uma amiga muito querida quando eu estava terminando.


Em última instância, o conteúdo do conhecimento produzido em um trabalho de pós-graduação deve se relacionar intimamente com o modo através do qual ele foi produzido. Porque afinal os conteúdos se desatualizam, nós mudamos nossas opiniões e o mundo vai mudando de forma rápida nesses dias. 

Sendo mais concreta, aprender a estruturar e dar vazão às formas de pensar e viver o mundo é a grande herança que uma tese deixa: o objetivo não é transformar pessoas em enciclopédias humanas, mas talvez humanizar o conhecimento “duro” das teorias de forma que ele se concretize na instância cotidiana da vida de cada um. Aprender a conhecer, aprender a pensar, aprender a disseminar ideias, valores, conceitos, reflexões, práticas e, sobretudo, aprender a olhar x outrx. A tese cria um instrumental para se olhar as pessoas e o mundo de forma humanizada através do conhecimento e não o contrário. Essa seria a concretização do exercício intelectual como ação profundamente humana, falha e incrível como todas as outras ações que temos empreendido desde sempre. 

sábado, 24 de janeiro de 2015

2015

Atenção, atenção! Récita em Barão Geraldo neste início de fevereiro!

Dias 1, 2 e 3 de fevereiro

Horário: 22h

Local:  Espaço Rosa dos Ventos

Endereço: Morada das Artes -  Rua Edna de Barros Sanches, no 80/ Vila Santa Isabel - Barão Geraldo


Telefones para conato: 19 3305 8372 e 98182 4430